ARTIGOS


A RELAÇÃO HOMEM-TRABALHO
Artigo Científico

RESUMO

O presente artigo pretende demonstrar a importância de um equilíbrio entre a condição natural do homem de exercer esta atividade, fazendo dela um contexto e complemento de vida, sem tornar esta relação num sistema que não permita o seu desenvolvimento nos campos pessoais e emocionais.



INTRODUÇÃO

O presente artigo visa demonstrar a importância de se encontrar uma maneira de fazer do relacionamento homem-trabalho um elemento transformador, tornando o homem um ser expansivo em direção às suas reais condições e pertencer a uma sociedade organizada que não mais tenha, nesta atividade, um estrangulador da felicidade ou um bloqueador de realizações.



OBJETIVO

O presente artigo tem, por objetivo, sugerir um processo de evolução no contexto do relacionamento homem-trabalho, no qual o trabalho se torne um elemento difusor de crescimento para estes dois elementos, fazendo, deles, linhas unificadas na expansão da sociedade, através da melhoria do homem e dos processos de visões de trabalho.



REVISÃO DA LITERATURA

Certa vez, perguntaram a Sigmund Freud o que ele achava que uma pessoa normal deveria ser capaz de fazer bem. Ele teria dito: “Lieben und arbeiten” (“amar e trabalhar”). Freud acreditava que é por intermédio da família que as necessidades relacionadas ao amor são gratificadas e que o trabalho tem um efeito mais poderoso que qualquer outro aspecto da vida humana de vincular uma pessoa à realidade.

O posicionamento de Freud, sobre uma pessoa normal “amar e trabalhar”, pode ser interpretado como uma ênfase no trabalho e na família para um funcionamento psicológico sadio.

O tópico trabalho e o papel que ele desempenha em nossas vidas tem sido assunto de interesse e controvérsia através dos tempos da história.

O status profissional desempenha um papel importante no senso de identidade, auto-estima e bem-estar psicológico de uma pessoa. O trabalho é a característica central e definidora da vida da maioria dos indivíduos. O trabalho pode ter valor intrínseco e instrumental, ou ambos. O valor intrínseco do trabalho é o que um indivíduo dá à realização do trabalho, em si e por si. Já o valor instrumental do trabalho está em prover as necessidades da vida e servir de canal para os talentos, as habilidades e os conhecimentos dos indivíduos.

Por quê as pessoas trabalham? Durante séculos, essa pergunta aparentemente simples tem sido debatida sob várias perspectivas, inclusive religiosa, econômica, psicológica e filosoficamente. Alguma doutrina religiosa ensinou que o trabalho era uma forma de punição por nosso pecado original. O trabalho era uma obrigação ou dever de construir o reino de Deus. Portanto, o trabalho era bom, e o trabalho árduo ainda melhor. O trabalho era nobre por causa da sua natureza opressiva e por ser uma provação, o que fortalece nosso caráter. Ensinamentos religiosos também enfatizam o trabalho como um meio de controlar e reprimir nossas paixões. A falta de trabalho, ou o ócio, promove impulsos doentios, que nos desviam dos propósitos mais admiráveis. Assim, o trabalho é considerado um processo árduo, deliberadamente carregado de dificuldades, um meio de facilitar nosso desenvolvimento pessoal. A visão da perspectiva econômica é que o trabalho nos proporciona os recursos financeiros para sustentarmos a vida e a aspiração para melhorarmos a qualidade de nossa vida material. A definição de trabalho mais comumente aceita, a troca de trabalho por pagamento, reflete claramente um ponto de vista econômico. O trabalho também tem significado psicológico, dando-nos uma fonte de identidade e a união com outros indivíduos, além de ser uma fonte de realização pessoal. Ele também tem o efeito de conferir um ritmo temporal às nossas vidas. Nosso trabalho nos dá uma estrutura de tempo – quando precisamos ir para o trabalho e quando não estamos trabalhando para nos dedicarmos a outras atividades. Finalmente, o trabalho até mesmo oferece uma explicação filosófica sobre nossa missão na vida – extrair significado de criar e dar trabalho aos outros.

Como pode ser observado, não existe uma única resposta para a pergunta por quê trabalhamos, mas seus múltiplos significados oferecem uma base para compreendermos por que o trabalho é tão importante e por que é necessário um equilíbrio nesta relação homem-trabalho.



METODOLOGIA

De maneira experimental, propomos que seja desenvolvido um equilíbrio nesta relação homem-trabalho, para que outros campos pessoais, como a família, não sejam vítimas de um processo de exclusão em meio ao processo de atividade relacionada à busca de atividade pela sobrevivência.

Aplicando-se pelas organizações uma “psicologia positiva”, que nos últimos 60 anos tornou-se uma ciência que diz respeito à cura, na qual se busca a compreensão do que faz a vida valer a pena, e não simplesmente apenas como lidar com os eventos negativos da vida e como se curar deles. Numa sociedade apegada ao materialismo, onde a aquisição de bens materiais está levemente relacionada à nossa satisfação com a vida e o trabalho seria o instrumento destas aquisições, recomenda-se que as nações avaliem e monitorem quão freqüentemente e intensamente pessoas se sentem satisfeitas e felizes em várias circunstâncias e situações.

Devem-se então encontrar razões, através desta metodologia, para que os conjuntos de recompensas materiais e sócio-emocionais sejam mutuamente conciliados sem exigências conflitantes.

O tempo é um recurso derradeiro e escasso, a alocação desse tempo apresenta escolhas difíceis que acabam determinando o conteúdo e a qualidade de nossas vidas. Talvez, por isso, profissionais pensam ser difícil equilibrar as exigências entre trabalho e família, e porque não raramente sentem que deram menos atenção do que deviam a um destes aspectos vitais de suas vidas.

Fazer tudo que precisa ser feito dentro de um cronograma existencial, alinhando nossas reais prioridades entre viver, trabalhar e amar, através de uma visão holística de que se deixarmos algum destes três itens para trás, nos fará falta no futuro.

A relação homem-trabalho tem de ser uma linha de encontro e de conquistas vivenciais, e não uma linha divisória de nossas necessidades como pessoas num universo em expansão, onde cada vez mais as pessoas precisam umas das outras.



RESULTADOS

Como resultado do encontro de uma linha de equilíbrio entre a relação homem-trabalho, estará se promovendo uma sociedade melhor, através de um homem melhor, pois a vivência dentro de um universo organizacional também é regida por emoções alinhadas e vividas.

Pessoas que cultivam desafetos em suas vidas privadas em função do trabalho terminam por levá-los, de alguma maneira, para dentro do trabalho, refletindo em baixo desempenho ou, até mesmo, em decisões comprometedoras para as empresas. Este equilíbrio proporcionará fatores determinantes de bem-estar e saúde mental, como: oportunidade de controle; oportunidade de usar a habilidade; metas geradas externamente; variedade ambiental; transparência organizacional; disponibilidade de dinheiro; segurança física; oportunidade de contato interpessoal e posição social valorizada. Dentro deste equilíbrio da relação homem-trabalho, poderá se desenvolver componentes agregados ao melhor modo de se buscar performance, como: bem-estar afetivo; competência; autonomia; aspiração e funcionamento integrado.

Como uma das principais conseqüências deste alinhamento, o “estresse de trabalho”, terá seus dias contados, pois as desordens psicológicas no local de trabalho foram identificadas entre as dez principais doenças e acidentes relacionados ao trabalho nos EUA pelo The National Institute for Occupational Safety and Health. Organizações melhores são construídas por pessoas melhores, e estas são construídas quando seus limites de existência são vividos de maneira a incluí-las num processo de realizações e felicidade.



CONCLUSÃO

O que tem a fazer uma velha organização taylorista com as necessidades de um homem pós-industrial? O que temos nós a fazer com a velha organização que pretende impor a uma força de trabalho já escolarizada, culta, autônoma, ciosa da sua subjetividade e dos seus desejos de bem-estar, as mesmas regras criadas há cem anos por corporações operárias analfabetas e portadoras de poucas e elementares necessidades de sobrevivência?

Quanto mais a organização tem necessidade de criatividade para corresponder prontamente aos valores emergentes do sistema social, mais deve dispor de pessoas motivadas pelo equilíbrio da relação homem-trabalho. Grande parte dos textos de ciência organizacional ainda dá como certo que as organizações sirvam, de qualquer maneira, como estão e que todos concordem com a sua indiscutível utilidade. Isso se deve às virtudes originais que as ciências organizacionais levam orgulhosamente consigo: a humanidade começou a fazer progressos palpáveis apenas no momento em que começou a organizar cientificamente o trabalho coletivo, pelo qual o século de história que se seguiu a Taylor produziu mais progresso que todos os milhares de séculos que o precederam.

Hoje, o trabalho tem a possibilidade de fazer do homem um elemento capaz de transformar sentimentos em realidade e reunir, à sua volta, pessoas com um mesmo objetivo e com visões concretas de que é possível fazer do trabalho um meio não somente de vida, mas também um fator existencial.



BIBLIOGRAFIA E REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

DEJOURS, Christophe, ABDOUCHELI Elisabeth, JAYET, Christian. Psicodinâmica do trabalho: contribuições da escola Dejouriana à análise da relação prazer, sofrimento e trabalho. Editora Atlas, 1994.

DRUCKER, Peter F. A organização do futuro. Editora Futura, 1997.

MASI, Domenico de. Desenvolvimento sem trabalho. Editora Esfera, 1999.

MASI, Domenico de. O futuro do trabalho. Editora José Olympio, 1999.

MUCHINSKY, Paul M. Psicologia organizacional. Editora Thompson, 2004.

PETERS, Tom. Série 3 volumes – reinventando o trabalho. Editora Campus, 2000.

Cesar Romão
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